Decepcionado, Evangelista Torquato admite: “Não deveria ter entrado”

O blog Nota Esportiva traz como novidade aos leitores um quadro de entrevistas, trazendo sempre todas as semanas, sobretudo nos dias de sexta-feira, um bate-bola com algum jogador, dirigente, ou algum personagem que esteja envolvido diretamente no esporte local.

Evangelista Torquato passou apenas 33 dias na diretoria tricolor (Foto: Nodge Nogueira/Site Oficial do Fortaleza)

Evangelista Torquato passou apenas 33 dias na diretoria tricolor (Foto: Nodge Nogueira/Site Oficial do Fortaleza)

O silêncio chegou ao fim. Com o falecimento do pai em meio à saída conturbada do Fortaleza, durou mais do que o previsto, mas foi quebrado em mais de 45 minutos de conversa, em sua clínica, na noite da última quinta-feira. Com o habitual discurso firme, Evangelista Torquato distribuiu críticas à atual gestão do Tricolor, revelou conflitos internos, explicou o planejamento montado para o departamento de futebol, exaltou o técnico Marcelo Chamusca e admitiu: arrependeu-se da decisão de entrar na diretoria.

Após quatro meses na diretoria de planejamento no início de 2013 e, no segundo semestre, a criação do movimento de oposição Democracia Fortaleza, Evangelista Torquato retornou à cúpula do clube em janeiro deste ano. Reassumiu a pasta de planejamento e ficou responsável também pela diretoria de futebol, após a saída de Adaílton Campelo. Entretanto, diante da boa fase do time em campo – ainda invicto na temporada -, o dirigente se voltou para a parte administrativa e tentou se inteirar da situação para buscar soluções junto com o amigo e diretor financeiro Flávio Novais.

Apesar da promessa de autonomia total nos cargos, a dupla não teve acesso aos contratos exigidos e passou a enfrentar atritos e dificuldades na diretoria. Torquato pretendia dar mais transparência à torcida – sobretudo aos sócios – acerca das finanças do clube, mas esbarrou na atual gestão. O ex-diretor de futebol e de planejamento do Leão relatou momentos de crise do clube em 2014 e revelou, por exemplo, que o presidente Osmar Baquit estava decidido a se licenciar do cargo e, em reunião, até apresentou à diretoria uma carta de licença, mas foi “impedido” pelo vice Daniel Frota.

– (Daniel Frota) Se levanta, em um rompante, diz que não aceita, dá passos em direção ao Adaílton, tira a carta do bolso dele e rasga na frente de todo mundo. Um circo. Um verdadeiro circo – lamenta

O médico falou, ainda, sobre os salários atrasados dos jogadores e a demora para se apresentar ao elenco, apontou as melhorias que planejava para o departamento de futebol, comentou sobre as renovações com jogadores jovens, elogiou bastante Marcelo Chamusca, com quem se reuniu apenas duas vezes, e comentou as negociações frustradas com os zagueiros Saimon, do Grêmio, e Heitor, do Criciúma, e os atacantes Léo Jaime, do Bragantino, e Rafael Oliveira, ex-Academica de Coimbra, de Portugal.

Leia a íntegra da entrevista de Evangelista Torquato ao Nota Esportiva:

Ações no departamento de futebol

A gente começou a fazer um trabalho extramamente interessante no futebol, com reuniões semanais, em que a gente analisava as contusões dos nossos jogadores, como estava o departamento médico… A gente estava tentando contratar um novo médico, porque havia essa carência; tentando fazer parcerias com clínicas para ter espirometria (exame de pulmão) para os atletas que chegassem; entrando em contato com serviço de nutrição, que faria uma avaliação nutricional de todos os atletas e elaborasse um cardápio para a concentração e um cardápio aproximado para os atletas quando estivessem fora do clube; estava em negociação com uma equipe de coaching, para o aspecto motivacional da equipe. A gente tinha que fazer uma contratação naquele molde traçado. E só o financeiro e o futebol tinham que saber quem seria contratado, nada de presidente ou vice-presidente. E o financeiro estava sabendo. Então, fizemos tudo de forma correta. Ou seja, o embrião de um trabalho.

Marcelo Chamusca

Talvez o maior acerto do Judson (Fernandes, ex-assessor de futebol) tenha sido a indicação do Chamusca. Vivas, palmas e urras para o Adaílton, que fez isso. Bancou um nome que ninguém conhecia. Ótimo, espetacular. Para mim, uma surpresa espetacular. Humilde, simples, mas entende, tem boa leitura de jogo, que é fundamental. Por exemplo, o Nedo sabia montar a equipe, mas, para mim, não tinha uma boa leitura de jogo. O Vica já tinha uma visão de jogo melhor. Para mim, esse rapaz lê o jogo melhor que o Vica. E outra coisa: o Fortaleza tem padrão de jogo. Em alguns momentos, o Vica conseguir dar esse padrão, mas, em alguns momentos, a equipe pecou muito.

Dívida com o elenco

Quando eu assumo, meu pai adoece três dias depois e eu encontro um monte de dívidas. Combinei com o Júlio (César Manso, gerente de futebol) que manteria contato direito com ele, buscaria deixar o elenco em dia e aí me apresentaria. Porque aí eu estaria dizendo: “Essa é a minha chegada”. Com o elenco em dia, isso foi uma estratégia nossa mesmo, porque eu tinha uma condição emocional importante – a doença seguida da morte do meu pai – e a dívida com o elenco, porque eu queria deixar em dia.

Busca por reforços

O Saimon esteve acertado. O problema do Saimon foi o problema que ele teve (divulgação de um vídeo íntimo), estava acertado. O zagueiro do Criciúma, Heitor, estava acertado e viria por R$ 2 mil. Foi justamente no momento da confusão do futebol, quando queriam que eu saísse e disseram que não poderia contratar mais ninguém. Eu estava praticamente fora, mas deixei o Heitor contratado. Rafael Oliveira estrava contratado, pré-contrato já feito e base salarial acertada. Ele só tinha pedido um tempo para se apresentar porque ia noivar ou casar, uma coisa assim. O pré-contrato seria enviado em uma quarta-feira, mas na sexta-feira teve a reunião louca, e o Flávio saiu. Cheguei a conversar com o Léo Jaime. Ele ganha R$ 15 mil e viria por R$ 25 mil, mas a gente achava que valia a pena porque seria outro cenário de jogo, por causa da velocidade dele. E aí a gente ia negociar a liberação com o Bragantino. Mas com o jogador estava acertado.

Renovações

A gente renovou com o Walfrido até 2017 e deixou tudo acertado até 2016 com o Cametá, base salarial toda acertada. No dia de assinar o contrato, ele ficou com catapora e não veio, mas ficou feliz porque a gente estava reconhecendo o trabalho dele, e acredito que já deve ter assinado. O Edinho até 2016, o Romarinho também. Estamos colhendo os frutos da base que temos.

Doença e morte do pai

Atrapalhou. Atrapalha porque, emocionalmente, você fica muito deprimido… Eu tinha e tenho uma relação muito forte com meu pai. A morte é apenas uma transição de algumas coisas, só o corpo físico desaparece, mas outras coisas não vão desaparecer nunca. Emocionalmente eu fiquei muito abalado, mas só me mantive na diretoria porque queria ver meu time diferente.

Na verdade, a morte do meu pai não iria atrapalhar em nada, porque se em vida eu me mantive, imagina com meu pai já morto. O problema da saída foi que o presidente falou: “Nós não conseguimos trabalhar em conjunto”. Então, se o Baquit sai, significa que eu posso ficar; se ele fica, significa que eu tenho que sair. Ele saiu e voltou. O recado estava dado: “Saiam vocês”.

Fritura

O Baquit tinha uma estratégia muito clara de “ferrar” o meu nome. Você sabe o que é o cara (jogador) vir, estar aqui e ir embora? Isso é para acabar com o diretor de futebol. E tudo isso tem uma motivação: acesso a todas as contas do clube. Essa é a motivação. Nós íamos abrir as contas para quem, de fato, é dono do clube. Sócio-proprietário: tem acesso às contas do MITT (Movimento Independente da Torcida Tricolor) e ao balanço final de tudo, assim como conselheiro. Sócio-torcedor: tem acesso à transparência da empresa O&A (responsável por administrar o Leões do Pici, programa de sócio-torcedor). Nós podemos fazer isso. Qual era o nosso pilar? A gente põe o máximo de transparência para quem, de fato, tem que se fazer. Não estou falando de fazer um balancete da empresa para todo mundo ver, não. No site, posso reservar uma área para os sócios-proprietários e sócio-torcedores, uma área de reserva, coisa mais boba do mundo de fazer. Não estou propondo chegar ao estágio final de ter tudo aberto para todo mundo, embora seja o ideal. O Corinthians e outros times fazem isso. Com transparência, eu teria base para dizer: “Agora vem investir aqui. Vem, porque tu vai saber onde é que vou gastar”. A gente tinha esse lema muito forte. Por quê? Porque todo mundo fala que não é transparente, então a gente chega com a transparência. É estratégia de virar o jogo. O que a gente não contava é que estava ali apenas como peça para cobrir uma grana e depois poder ser descartado.

Convite de composição por interesse financeiro

Eu não tenho a menor dúvida de dizer isso para você. A menor dúvida.

Arrependimento

Arrependo. Arrependo porque, em dois anos, eu deixei lá, praticamente, R$ 400 mil. Com R$ 400 mil, eu teria construído completamente o hotel Otoni Diniz e teria deixado um patrimônio para o meu time. Eu me arrependo. Me arrependo de ter dado R$ 400 mil para Baquit e Daniel Frota.

Eu deveria ter escutado o Dema (Demetrius Coelho, ex-diretor de marketing e membro do movimento Democracia Fortaleza), o Marcello Desidério e não deveria ter entrado. Mas tudo na vida tem um ponto positivo e um ponto negativo. Por outro lado, isso me fortaleceu muito a vontade de um dia comandar aquela gestão, porque hoje eu tenho a exata noção do malefício que essa gestão causou nesses últimos três, quatro anos. Existe uma verdadeira desordem administrativa. Mas é uma desordem muito, muito, muito grande.

Dívida da diretoria

(R$ 400 mil) Dado. O que emprestei foi R$ 150 mil, que estão há três meses sem me pagar. R$ 3 mil por mês, sem juros, e estão há três meses sem me pagar.

Reunião decisiva

Outro caso interessante para saberem a verdade: a reunião fatídica. Em meio a toda essa turbulência, o Baquit convoca uma reunião de diretoria. Cheguei lá, e tinham mais de 20 pessoas. (…) Para mim, tem que ser uma reunião “fechadéssima”: seis, sete, oito pessoas. Uma reunião dessas vira um circo. Todas as duas únicas reuniões que participei com o Baquit foram um circo. (…) Em meio a todos esses conflitos, tem um momento que o Baquit fala: “Estou achando que nós não podemos conviver juntos, administrativamente não tenho condições de trabalhar com vocês. Então, para o bem do meu time, eu vou me licenciar”. O Baquit sai, vai na sala ao lado, volta com a carta-renúncia (carta de licença, na verdade), e dá para o Adaílton (Campelo), o vice do Conselho (Deliberativo), que estava lá acompanhando a reunião como convidado, assim como o próprio presidente do Conselho (Elpídio Brígido Filho). (…) O que o Daniel (Frota, vice-presidente) faz? Se levanta, em um rompante, diz que não aceita, dá passos em direção ao Adaílton, tira a carta do bolso dele e rasga na frente de todo mundo. Um circo. Um verdadeiro circo. O Baquit disse que era irrevogável, que faria outra carta. Eu tinha que sair para atender (na clínica) e saí com a esperança de que o Baquit faria outra carta e sairia. Para a minha surpresa, o Baquit disse que não iria mais se licenciar. Pela, sei lá, enésima vez, ele ficou nessa brincadeira de sair e entrar, como se fosse síndico de um prédio de três andares. Qual foi a minha interpretação? Se o meu presidente fala que não há condição de trabalhar comigo e se mantém, está me mandando sair. E o Flávio Novais faz uma carta dizendo que iria sair, que o cargo estava entregue. E eu havia dito ao Flávio desde o começo que “se ele entra, eu entro; se ele sai, eu saio”. E esse foi o episódio de finalização de tudo isso.

Reportagem, Produção e Edição por:
Afonso Ribeiro

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Publicado em 28 de fevereiro de 2014, em Entrevistas, Fortaleza e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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